TRECHO DE
Ciranda de pedra

Virgínia subiu precipitadamente a escada e trancou-se no quarto.

- Abre, menina - ordenou Luciana do lado de fora.

Virgínia encostou-se à parede e pôs-se a roer as unhas, seguindo com o olhar uma formiguinha que subia pelo batente da porta. “Se entrar aí nessa fresta, você morre!” - sussurrou soprando-a para o chão. “Eu te salvo, bobinha, não tenha medo”, disse em voz alta. E afastou-a com o indicador. Nesse instante fixou o olhar na unha roída até a carne. Pensou nas unhas de Otávia. E esmagou a formiga.

- Virgínia, eu não estou brincando, menina. Abre logo, anda!

- Agora não posso.

- Não pode por quê?

- Estou fazendo uma coisa... - respondeu evasivamente. Pensava em Conrado a lhe explicar que os bichos são como gente, têm alma de gente e que matar um bichinho era o mesmo que matar uma pessoa: “Se você for má e começar a matar só por gosto, na outra vida você será bicho também, mas um desses bichos horríveis, cobra, rato, aranha...” Deitou-se no assoalho e começou a se espojar angustiosamente, avançando de rastros até o meio do quarto.

- Ou você abre ou conto para o seu tio. É isto que você quer, é isto?

Virgínia imobilizou-se. Ser cobra machucava os cotovelos, melhor ser borboleta. Mas quem ia ser borboleta decerto era Otávia, que era linda. “E eu sou feia, e ruim, ruim, ruim!” - exclamou dando murros no chão. Ergueu a cabeça num desafio:

- Pode contar tudo, tio Daniel não me manda, quem manda em mim é meu pai, ouviu? Meu pai.

Luciana não respondeu e Virgínia levantou-se tomada de um súbito pavor. Falara alto demais. Teria a mãe ouvido? Pôs-se a enrolar no dedo uma ponta da franja. “Não, não ouviu e se ouviu não entendeu.” Abriu a porta e, assim que a empregada entrou, sondou-lhe a fisionomia. Tranqüilizou-se. “Só se zanga mesmo quando eu falo naquilo.” Riu baixinho.

- Onde está a outra? - perguntou Luciana erguendo do chão uma presilha.

- Perdi.

- Então você vai de fita.

- Não, de fita, não! Meu cabelo é liso demais, fica tão feio...
- Então vai sem nada - disse Luciana com indiferença. Dirigiu-se à cômoda, que tinha um tom rosa encardido, e puxou a gaveta. Estava emperrada. Puxou-a com mais força.
- Dá um pontapé que ela abre logo.

- É um bom sistema esse. Assim, quando se arrebentar tudo, você guarda sua roupa no chão. - Tirou da gaveta um par de meias brancas. - Quando estes móveis vieram de lá, ainda eram novos.

- Mentira - disse Virgínia em voz baixa. Falava com cuidado para que a mãe não ouvisse lá embaixo. - Bruna já me deu tudo assim mesmo. O pai deu mobília nova pra ela e então ela me deu estes. Tio Daniel disse uma vez que ia me dar uma mobília azul e não me deu nada.

- Ele tem mais em que gastar.

- É, mas ele disse que ia me dar uma mobília e não deu nada. Bruna disse que ele tem obrigação de dar tudo pra minha mãe e pra mim. E Bruna sabe.

- É pouco o que ele dá, não?

- Não quero saber, só sei que ele ia me dar uma mobília azul e não deu nada.

Luciana abriu o armário, tirou de dentro um vestido e afrouxou-lhe o laço da cintura. Seus movimentos não tinham a menor pressa. “Assim de costas parece branca”, concluiu Virgínia fixando o olhar enviesado nos cabelos da moça. Eram lustrosos e ligeiramente ondulados, presos na nuca por uma fivela. Na fivela estava pintada uma borboleta vermelha. Lembrou-se então da formiga e instintivamente olhou para as próprias mãos. As mãos de Conrado eram mãos de príncipe. Jamais aqueles dedos esmagariam qualquer coisa.

- Escute, Luciana, você acha mesmo que se a gente é ruim nesta vida, numa outra vida a gente nasce bicho? Tenho medo de nascer cobra.

- Você já é cobra - disse Luciana com brandura.

- E você é mulata - retorquiu Virgínia no mesmo tom. - E gosta dele, por isso faz tudo para parecer branca.

- Ele quem? Ele quem? - repetiu Luciana. Tinha uma expressão zombeteira e seu tom de voz era suave. Mas havia qualquer coisa de dilacerado sob aquela suavidade.

- Ninguém, eu estava brincando.

Deixou-se vestir passivamente. Adiantara-se muito, adiantara-se demais. “Agora ela sabe que eu sei.” Cravou em Luciana o olhar aflito. A fisionomia da moça continuava impassível. “Ela finge que não se importa mas está com vontade de me esganar.” Quando sentiu no pescoço seus dedos frios abotoando-lhe a gola, teve um arrepio misturado a uma estranha sensação de gozo. Viu-se morta, com a grinalda da sua primeira comunhão. Trazidas por Frau Herta, vestidas de preto, chegavam Bruna e Otávia debulhadas em pranto: “Nós te desprezamos tanto e agora você está morta!” Aos pés do caixão, quase desfalecido de tanto chorar, o pai lamentava-se: “Era a minha filhinha predileta, a caçula, a mais linda das três!...” Muito pálido dentro da roupa escura, Conrado apareceu com um ramo de lírios: ‘Ia me casar com ela quando crescesse.’ Alguém se aproximou de Frau Herta: ‘Mas, e onde está Daniel, por que não veio ao enterro?’ E Frau Herta em voz bem alta, para quem quisesse ouvir: “Ele fugiu com Luciana, fugiram os dois, a estas horas estão se divertindo juntos, rindo e cantando era uma vez duas ninfas que moravam num bosque...”

Grossas lágrimas correram dos olhos de Virgínia. Como ele tivera coragem de fugir deixando-a ali, morta? Tapou a boca para conter os soluços. E cantar a Balada das Duas Ninfas, justamente a balada que a mãe gostava tanto de ouvir!...

Do livro Ciranda de pedra (1954)

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